Colecção Privada
É uma das principais telas que Renoir dedicou a um dos seus motivos favoristas, as banhistas. Escolha de Fernando Pernes, crítico de arte e assessor cultural da Fundação de Serralves É a partir de 1885 que os nus ao ar livre, frequentemente chamados "as banhistas", adquirem um papel relevante na obra do pintor francês Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), um dos mestres do impressionismo, ao qual é dedicado o álbum da Taschen que amanhã publicamos. No percurso de Renoir, a obra principal deste período de nus é "As Grandes Banhistas", concluída em 1887, uma tela a óleo (118x170 cm) na qual o pintor trabalhou durante três anos, um tempo invulgarmente longo. É esta a escolha de Fernando Pernes, crítico de arte e assessor cultural do Conselho de Administração da Fundação de Serralves. "Renoir é um artista que faz muito bem uma abertura à modernidade", começa por explicar este especialista. "O fantasma de Rubens paira em toda a obra dele, nomeadamente sempre que a nudez feminina é assumida. Renoir transporta a memória rubensiana para uma actualidade." De que forma? "No Rubens, a nudez feminina tinha a ver com a mitologia antiga, [as figuras nuas] eram musas. Com Renoir, é a rapariga do quotidiano, a nudez juvenil." O que se liga a outra característica deste impressionista: "É um pintor da alegria. Um pintor da luminosidade, do lirismo, da 'joie de vivre'. A nudez, nele, é transformada numa festividade." "Há quem já tenha dito", recorda Fernando Pernes, "que quando o filho do pintor [o cineasta Jean Renoir] viu os primeiros filmes da Brigitte Bardot disse: 'Foi o meu pai que a inventou.' Porque a nudez da Bardot é definida nos termos da inocência. O Renoir ultrapassou o sentido da nudez como pecaminosa. A dele é uma nudez de assumir a natureza na carne, uma nudez não lasciva." Não por acaso, nota este crítico, "ele é também um notabilíssimo pintor de crianças, com um lirismo igualmente da inocência". "Excepcional artista", que conjugou o sublime e o prosaico, Renoir "bem soube dizer e assumir o fascínio da carne num impressionismo antagónico do dramático expressionista". Nesse sentido, "é um pintor antidramático, antiexpressionista". E "sobreviveu admiravelmente" ao tempo: "Este inocentar da nudez tem muito a ver com a nossa modernidade mais próxima." "Porque é que a arte não pode ser bonita?", perguntou um dia Pierre-Auguste Renoir, para justificar em seguida: "Já há suficientes coisas desagradáveis no mundo." "As Grandes Banhistas" está no Philadelphia Museum of Art, em Filadélfia (Estados Unidos). |
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