|
Colecção Privada
O quadro da semana - "Enlace (Par Enlaçado II) "
Helena
Vasconcelos diz que Schiele foi "um dos artistas que melhor compreendeu
a correlação vertiginosa e abissal entre o sexo e a morte".
Em 1917, a Europa estava mergulhada na guerra. "Egon Schiele, que
crescera na Viena esplendorosa - a 'cidade dos sonhos' de Musil - pintou
a desumanidade de um universo em colapso", explica Helena Vasconcelos,
directora da Storm-Magazine. Talvez por isso, procurasse "a verdade
nos olhares emaciados e maquilhados das mulheres, e nos corpos nus e pré-púberes
de crianças".
Schiele era o "amante desregrado, o mau filho, o narcisista compulsivo,
observador desapiedado do desejo, da cobiça, da luxúria
e da hipocrisia", explica Helena Vasconcelos, mas "foi também
um dos artistas que melhor compreendeu a correlação vertiginosa
e abissal entre o sexo e a morte, entre 'Eros' e 'Thanatus'".
Nos seus quadros, o corpo é "levado ao extremo da sua carnalidade",
as figuras "contorcem-se em êxtase de prazer e dor, no momento
do orgasmo, na intimidade sufocante, na fragilidade opressiva". Como
neste, "Enlace (Par Enlaçado II)", de 1917, que, para
Helena Vasconcelos, "representa o culminar das convicções
e paixões do artista, e é um dos seus retratos mais poderosos
e comoventes".
"Schiele, que desenhou um número infindável de 'pares'
(alguns exclusivamente femininos), de auto-retratos (muitos como se se
tratasse de gémeos siameses se tratasse), representa, aqui, dois
corpos, o de um homem e o de uma mulher, tão estreitamente enlaçados
que formam uma só 'carne': os músculos, tendões,
concavidades e extremidades dos torsos partem do centro da pintura e espraiam-se,
diagonalmente, por todo o espaço da tela", explica.
Aqui, os rostos dos dois amantes estão "parcialmente escondidos,
num abandono de sono (ou de morte)", e os corpos "revelam-se
em toda a sua pujança - o da mulher abre-se e recebe o peso do
homem que a envolve num abraço férreo".
Schiele, que deixou "uma marca profunda" no mundo artístico
("compare-se a sua obra com a do português Mário Eloy
e com a de Lucien Freud", diz), pintou as cidades como "lugares
de solidão". Continua Helena Vasconcelos: "Glorificava
a Natureza e o seu papel criador e regenerador a partir da corrupção,
da podridão e da morte." Também nesta obra, "o
tecido evoca as formas desordenadas de elementos orgânicos: folhas,
troncos, ramos, arestas e concavidades (repare-se no cabelo da mulher,
derramando-se como um manto até se confundir com as sombras)".
Porque aqui "os lençóis amarrotados acolhem o par como
uma concha ou um estranho ninho".
Este quadro narra, por isso, "um triunfo": "O do masculino
e do feminino unidos pela energia vital do sexo, alheados de um mundo
caótico, imperfeito e cruel. É um cântico dionisíaco,
a celebração pagã da vida, a experiência da
sensualidade e da procura espiritual." Como resumi-lo? Helena Vasconcelos
responde: "Masculino e feminino, luz e sombra, força e abandono,
vida e morte."
|