|
Colecção Privada
O quadro da semana - "Vénus e Adónis "
Nos quadros
de Rubens, "os corpos estão claramente habitados; eles são
a expressão dos seus próprios gostos, da sua poderosa individualidade
e sensibilidade".
As obras do período entre 1630 e 1640 de Peter Paul Rubens "são
pinturas de um homem cuja imaginação está totalmente
livre", escreve Gilles Néret, autor de "Rubens",
o próximo livro da Colecção Privada. "Ele nunca
desistiu da franca celebração da beleza feminina no seu
auge de poder e perturbação. O seu prazer pelo erótico
é mimético no seu género; perante uma mulher nua,
Rubens não sentia medo nem embaraço, simplesmente um poderoso
apetite pela forma, cor e luz."
Delacroix disse que Rubens era "o Homero da pintura". A sua
obra é o culminar, a síntese de todos os artistas que o
precederam, e Velázquez (um dos seus herdeiros) parece já
"espreitar por cima do seu ombro". "Ele combinou, assimilou,
desenvolveu e ampliou as diversas heranças de Caravaggio, Miguel
Ângelo, Tintoretto, El Greco e Veronese e adicionou-lhes o seu próprio
génio", explica Néret.
Pintou cenas religiosas, madonas e santos, mas sempre "demasiados
próximos da carne a partir da qual foram pintados", explica.
"Ele faz pouca distinção entre Nossa Senhora e Vénus,
Cupidos esvoaçantes pairando indistintamente como querubins. Rubens
está longe da universalidade da espécie humana procurada
pelos pintores italianos do século XVI. Estes corpos estão
claramente habitados; eles são a expressão dos seus próprios
gostos, da sua poderosa individualidade e sensibilidade."
Este quadro, "Vénus e Adónis", é exemplo
disso. Pertence já à última fase de Rubens, em que
o pintor flamengo se dedicou a composições profanas. Corresponde
também ao período da paixão por Helena Fourment,
a "mais bela mulher de Antuérpia", que Rubens representou
em inúmeros quadros. Como neste: "O mundo da mitologia clássica,
com os seus deuses do Olimpo, as suas ninfas e pastores e heroínas
superlativamente belas, tornaram-se o segundo habitat de Helena. Vénus
é a divindade que domina as últimas obras mitológicas,
e a Vénus de Rubens era Helena", diz Néret.
Numa interpretação da "Metamorfose" de Ovídio,
Vénus tenta em vão dissuadir o jovem Adónis da sua
fatal caçada. Ovídio explica que a história começa
quando Cupido atinge acidentalmente Vénus. Ela apaixona-se pela
beleza de Adónis, "até o céu recusa". Porque
"Vénus amava mais Adónis do que o céu".
Mas Adónis ignorou as súplicas da deusa e foi morto por
um javali.
No final da vida, Rubens executou uma série inteira de cópias
de Ticiano, como em "A Violação de Europa". Aqui,
quando reinterpretou Ovídio, fê-lo sob a luz do anterior
mestre, e aqui Helena Fourment foi mais uma vez a sua Vénus.
|