Colecção
Privada
Henri Rousseau era um pintor amador que só entrou no mundo da arte aos 41 anos. Na "anarquia" do pós-impressionismo, os duelos com Georges Seurat foram evidentes: Seurat era o intelectual, o líder do movimento e inventor do pontilhismo; Rousseau era "o ignorante", "e os seus quadros tinham o sucesso de uma farsa", escreve Cornelia Stabenow, autora de "Rousseau", o livro de amanhã da Colecção Privada. Mas Picasso disse: "Rousseau não é um caso. Representa de maneira perfeita, uma ordem muito precisa e estabelecida de pensar." O que é que isto quer dizer? O que resta de fascinante em Rousseau é a forma como consegue chegar a "soluções artísticas intuitivas, que correspondem sempre à sua natureza ingénua", escreve Stabenow. Ou seja, "move-se entre os extremos, a impressão óptica e o resultado visionário, o que explica por que é que os tradicionalistas e os vanguardistas desde muito cedo concordam em rotulá-lo de 'naïf'". Rousseau é, assim, um "artista de um contra-mundo intransponível e repleto de magia". E é porque pinta o que vê e como o vê, "sem ser incomodado por dúvidas e objectivos intelectuais", que este quadro é exemplar na sua obra. A vida de Rousseau foi trágica: após a morte da primeira mulher (cujo luto exibiu sempre como um "herói"), também os seus quatro filhos morreram cedo, de tuberculose. Foi em 1903, que pintou o quadro "A Criança e a Marioneta". Por que razão esta é uma obra-chave? "O mito da criança como inocência e originalidade torna-se dominante. Todos os que se vêem como seguidores de Rousseau, seguindo o lema 'voltar à Natureza', exigem também o retorno à infância. A visão racional do mundo deverá ser superada, o início e a integridade retomados", explica a autora. São principalmente poetas, artistas e teóricos de arte, como Alfred Jarry, Guillaume Apollinaire, Odilon Redon, Robert Delaunay ou Kandinsky que, "fartos da tradição institucionalizada", contribuem para a fama de Rousseau. Porque ele é "o velho infantil da arte, o grande ingénuo, que longe da reflexão e do requinte negativos, sabe criar, em sincera harmonia consigo e com os seus dons". Este quadro parece ser a definição do pintor: há uma harmonia com a natureza e uma sensação de protecção, aconchego. "A marioneta, símbolo do mecânico e da alienação, ainda não aparece como dominador neste mundo paradisíaco", diz a autora. Esse boneco é quase um "auto-retrato" do pintor, com o seu enorme bigode. Aqui, a criança, de formas exageradamente redondas, como em Botero,
"lembra as bonecas de porcelana". Está no centro do quadro.
Como no seu famoso auto-retrato, "Eu próprio, retrato-paisagem",
de 1890 - Rousseau coloca-se no centro da composição, "sem
considerações pelo meio constituído por pequenos
pormenores que o rodeiam, uma silhueta sobredimensionada no centro do
seu mundo". Era exactamente aí - no centro do seu mundo -
que Rousseau estava.
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