|
Colecção Privada
O quadro da semana - "Dois Lírios Sobre Cor-de-rosa
"
Georgia
O'Keeffe começou a pintar flores em 1918, mas só em 1924,
ano em que casou com o fotógrafo Alfred Stieglitz, executou as
primeiras flores ampliadas que marcaram a sua obra - a par das telas de
arranha-céus de Nova Iorque ou das paisagens despidas do deserto
do Novo México.
Entre 1918 e 1932, O'Keeffe pintou mais de 200 quadros de flores - rosas,
petúnias, papoilas, camélias, girassóis, corações-de-maria
e narcisos, íris pretas e orquídeas exóticas. Mas
foi o lírio que se tornou um "emblema" da pintora americana:
"Comecei a pensar neles devido às pessoas que tanto gostavam
deles como os detestavam com veemência, enquanto eu não sentia
nada em relação a eles", explicou um dia.
Esta obra, "Dois lírios sobre cor-de-rosa" (1928), é
por isso um quadro exemplar do percurso de O'Keeffe e das suas telas sobre
flores. "Eles são pintados num grande plano extremo, cujo
resultado é o corte das extremidades das folhas e pedúnculo",
explica Britta Benke, autora do livro "O'Keeffe", que amanhã
sai na Colecção Privada do PÚBLICO. "A pintura
maior deve, assim, ser finalizada na mente do espectador", continua.
Ou seja: é o "espectador" que "vê" o
que está para além da tela, o que está "off-camera",
porque é ele que "termina" a pintura. As flores ampliadas
de O'Keeffe não são, portanto, artificiais, mas ao serem
"retiradas do seu contexto natural, adquirem um significado especial
e um tamanho extravagante".
Os críticos conferiram sempre às suas flores um carácter
sexualista - na América dos anos 20, fascinada com as novas teorias
de Freud, às flores ampliadas de O'Keeffe de pormenores magníficos
de anatomia foram dadas conotações eróticas. O'Keeffe
não gostou: "Faço com que percam tempo a olhar para
o que eu vejo e quando levam tempo a perceber, verdadeiramente, a minha
flor, prendem-se nas vossas próprias associações
de flores e escrevem sobre a minha flor como se eu pensasse e visse o
que vocês vêem e pensam."
O'Keeffe estava preocupada com a simplificação formal, daí
que o lírio (flor extremamente simples) tenha sido um dos seus
motivos preferidos. A pintora movia-se numa sucessão de telas em
direcção à abstracção, porque a sua
pintura não estava ligada a um estilo representacional.
A linguagem pictórica compreendia, portanto, uma síntese
harmoniosa entre abstracção e objectividade. "É
surpreendente para mim ver como as pessoas separam o objectivo do abstracto.
Uma montanha ou uma árvore não conseguem fazer um bom quadro
(...) São as linhas e as cores combinadas, de forma a que signifiquem
algo. Para mim, é esta a base essencial da pintura. A abstracção
é muitas vezes a forma mais definida para o objecto, mais inatingível
para mim, que eu apenas consigo clarificar na pintura."
|