Colecção Privada
O quadro da semana - "Dánae"

Marina Bairrão Ruivo, curadora da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, diz que é difícil escolher uma obra de Gustav Klimt (1862- 1918), autor que tem um lugar muito particular na história da arte.

Entre um conjunto extremamente original e pessoal, das primeiras obras de temas históricos às alegorias simbolistas, das imagens monumentais do período da Secessão aos retratos e às paisagens, a escolha recaiu em “Dánae”, um nu feminino, celebração da mulher, o seu tema de eleição. É uma obra de 1907-1908, que corresponde a um período de intensa criatividade. Surpreende pela beleza que exala de uma representação feminina bastante crua e insólita: as coxas de “Dánae” abrindo-se ao jorro de Zeus, simbolizado por chuva de ouro, momento da concepção de um filho, Perseu.

“A beleza das mulheres é um tema persistente e permanente em Klimt, um fio condutor do seu percurso. O seu talento é indissociável de uma sensualidade implícita e explícita e de um erotismo refinado e elegante”, diz Marina Bairrão Ruivo.

A figura feminina vai surgir logo no início da sua carreira, ainda nas artes decorativas, evocada sob formas voluptuosas e ornamentais. Muito atento ao que de mais arrojado e moderno se fazia na cosmopolita Viena “fin-de-siècle”, efervescente artística e culturalmente, Klimt soube associar-se aos melhores arquitectos do seu tempo (como Hoffmann), participou como líder carismático na Secessão, o movimento artístico contestatário. Reagiu contra “o academismo e o conservadorismo com uma emancipação e uma liberdade que sempre caracterizaram a sua obra”.

Os seus retratos são geralmente de mulheres da aristocracia, encomendas da moda, de abundante ornamentação e composição totalmente preenchida, em trajes extravagantes e rostos quase fotográficos, “mas mesmo nesses retratos a nudez e o erotismo estão subjacentes ou dissimulados”.

Klimt retratou mulheres em atitudes mais íntimas, nuas, em poses sensuais, eróticas ou lascivas, de uma intimidade fortíssima. A curadora diz que é fácil deixarmo-nos seduzir pela paleta sedutora, pela pincelada vibrante e pela linha sinuosa e insinuante de Gustav Klimt, que acaba por ser um artista não rotulável, para quem o mais importante foi a liberdade criativa, um aristocrata dos sentidos, como foi chamado, que não deixa de nos surpreender e de exercer um irresistível fascínio de mistério.

A sua obra paisagística, despida de qualquer presença humana, tem algo do tratamento reservado aos seus modelos femininos e é tão original, arrojada e contemplativa quanto elas. A propósito da relação de Klimt com as mulheres, analisada numa exposição recente (“Klimt und die Frauen”, Viena, 2001), dissese que Klimt terá escrito uma das mais suculentas e diabólicas páginas da pintura com a célebre “Dánae”.

 






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