Colecção Privada
O quadro da semana
"Os Pilares da Sociedade"

Para António Sousa Ribeiro, George Grosz usa a “sátira política” para ilustrar os “fantasmas da guerra” que lhe povoam a mente

George Grosz (1893-1959), pintor, escritor e caricaturista alemão, tornou-se conhecido depois da I Guerra Mundial com os seus desenhos antimilitaristas. Ao escolher o quadro “Os Pilares da Sociedade”, António Sousa Ribeiro, professor de Estudos Germanísticos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, sublinha a conjugação entre “o vanguardismo formal da composição” e a “sátira política”.

A superfície da tela está, segundo o seu olhar, “sobreocupada” e pressente- se “a sufocação de um caos cuja dimensão apocalíptica é sinalizada pelo fogo que irrompe do lado esquerdo”. Apesar disso, “são as figuras, nitidamente recortadas, que ocupam o centro da composição”. António Sousa Ribeiro apelida-as de “grotescas marionetas” e volta a realçar o “impiedoso olhar satírico [que] singulariza um conjunto de tipos sociais, transformando- os em arquétipos daquele ‘rosto da classe dominante’ que Grosz perseguiu obsessivamente”.

Para o professor, o autor de “Os Pilares da Sociedade”, figura central do grupo dadaísta de Berlim, procurou com esta obra compor “um fresco emblemático do contexto político alemão dos anos 20, uma alegoria desencantada da catástrofe de uma normalidade social assente na exclusão e na violência”.

Groz sobreviveu à I Guerra Mundial internado num hospício e é essa “experiência traumática” que justifica o empenho político expresso em alguns dos seus trabalhos. António Sousa Ribeiro fala em “fantasmas” para se referir àquilo que povoa, “como um pesadelo, a imaginação artística de Grosz”. O movimento dadaísta passa, então, a servir “um realismo crítico alimentado pelos meios da sátira e do grotesco”, estando cada vez mais consciente da “proximidade do desastre”. Esta constatação levaria, poucos anos depois, o regime nazi “a retirar dos museus alemães 285 obras de Grosz, classificadas de ‘arte degenerada’”.

Além de caricaturas, o pintor costumava representar naturezas-mortas, paisagens urbanas e retratos. Porém, seriam as visões catastróficas da guerra que definiriam a sua sensibilidade estética, que António Sousa Ribeiro apelida de “sismográfica”. O tema reincidiu mesmo quando Grosz foi exilado para os Estados Unidos. “Os Pilares da Sociedade” são um reflexo de alguém que “dependia umbilicalmente da relação de conflito com um contexto próximo”.

 

 

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