Colecção Privada
O quadro da semana - "Adão e Eva - Homenagem a Apollinaire "

Este quadro, diz Pedro Tudela, é "um corpo uno, centrado" onde convergem elementos desiguais, "do claro e do escuro, do dia e da noite, do negativo e do positivo."

Em 1911, Marc Chagall troca a Rússia por Paris. Aluga um estúdio em "La Ruche" onde também viveram Léger, Modigliani e Soutine. É nessa altura que conhece os poetas Blaise Cendars e Guillaume Apollinaire.

Chagall contou um dia o seu encontro com Apollinaire: "Diante dos meus quadros, do período de 1908 a 1912, ele usou a palavra 'surnaturalisme'. Não podia imaginar que 15 anos mais tarde se iria formar o movimento surrealista."

Há um "sistema de trocas" entre Chagall, Cendars e Apollinaire. Este quadro, "Adão e Eva - Homenagem a Apollinaire" (1911-12), é um dos vários que Chagall dedicou ao amigo. E é a escolha do artista plástico Pedro Tudela.

Tudela conta que a primeira vez que viu uma "quantidade considerável de trabalhos de Marc Chagall foi em Junho de 1984 em Paris", numa exposição retrospectiva no Centro Georges Pompidou. "Por ser uma mostra que reunia uma grande parte da obra do artista, tendo o papel como suporte, foi possível apreciar uma imensa quantidade de estudos para as suas telas mais ou menos célebres", explica Pedro Tudela.

De "Adão e Eva - Homenagem a Apollinaire" havia nessa exposição "uns quatro ou cinco estudos". Tudela verificou que "a quantidade de dados e formas que afiguravam nos estudos se foram depurando, dando origem a um trabalho de estrutura geométrica, sublimado pela técnica do óleo com pó de ouro e prata sobre tela". É aqui que se nota, diz, "uma grande consonância com Robert Delaunay [também amigo de Chagall] na simultaneidade e luminosidade da secção de ouro".

Para o pintor português esta obra é um "corpo-família", porque "por entre os paradigmas das relações humanas, avaliados pelo artista, o corpo foi várias vezes interpretado alternando entre modelos sociais, religiosos ou políticos".

"Adão e Eva" é "um corpo uno, centrado, onde convergem todos os elementos da composição, testemunhando capacidades do desigual". Isto é, "do claro e do escuro, do dia e da noite, do negativo e do positivo". Ou da "partilha da criatura homem/mulher", "num espaço abstracto de uma espiral que as cores e as linhas envolvem e a colocam como se se tratasse de uma célula suspensa na atmosfera cósmica", continua Tudela.

Chagall não estava seduzido pelo cubismo ou pelo impressionismo. Daí que Tudela diga que o pintor apresenta (apesar de "confrontado com um cubismo que divide e define as formas") um "campo bidimensional com configurações de clara menção ao espaço e ao tempo". E continua: "Se, por um lado, o elemento central pode determinar os ponteiros do relógio, por outro, sugere possível reportação cabalística. Veja-se, por exemplo, o arquétipo associada ao compasso que também é descrito na figura principal e central na composição."

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