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Colecção Privada
Seabra Carvalho preferiu chamar a atenção para um painel de vulgaríssimo tema religioso e nenhuma paisagem: a “Adoração dos Magos” de 1564, que pode ser visto na National Gallery, em Londres. “O tema”, explica o conservador, “é trivial na pintura antiga mas há algo de singularmente inquietante, paródico e um pouco sórdido, no modo como está aqui representado”. Porquê? “O espaço da composição é comprimido e sufocante, especialmente do lado esquerdo, demasiado povoad de figuras armadas que se comprimem como u cortejo ameaçador — lembrando o episódio Jesus no Horto — em direcção ao Menino. S. Jo por seu turno, habitualmente tão secundarizado e circunspecto neste tipo de narrativas epifânicas, deixa-se distrair do cerimonial para escutar um obscuro segredo, talvez anunciando-lhe a ameaça do Massacre dos Inocentes.” “Quanto aos dois reis que esforçadamente se ajoelham perante a Virgem com o Menino, parecem estar ali menos para ofertar os seus presentes que para ‘ver’, para confirmar, segundo a ‘ostentatio genitalia’ que a pose do Menino e os gestos da Virgem deixam supor, o mistério da Encarnação, da divindade humana de Cristo.” No entanto, nota José Alberto Seabra Carvalho, são “dois personagens caricaturais, manifestamente decrépitos — de que visibilidade serão capazes? — a que nem as jóias ou os arminhos emprestam dignidade capaz, com eles contrastando a esplêndida figura de Baltasar, principesca e imponente, que fecha e equilibra verticalmente a composição no bordo direito”. Na opinião do conservador, “este majestoso rei negro — que deve ser citação monumentalizada do Baltasar da ‘Adoração dos Magos’ de Bosch pertencente ao Museu do Prado — não orienta o seu límpido olhar na mesma direcção da dos seus parceiros. Como notou Daniel Arasse”, acrescenta Seabra Carvalho. “Ele não precisa de ver, de ‘tocar’ com o olhar a encarnação sexuada do Verbo. A pintura consagra assim, na específica e significativa figura do negro, não só o reconhecimento universal do Mistério como mostra que a fé dos bem-aventurados não necessita de provas visuais ou tangíveis.” O cartógrafo Ortelius dizia do seu amigo Bruegel (1525?-1569): “Em todas as suas obras há sempre mais pensamento que pintura.” A frase, segundo o conservador, “parece ser, injustamente, um tanto
ambígua, mas ganha contornos adequados quando olhamos esta sofisticada
‘Adoração dos Magos’ — há nela,
subtil mas manifestamente, muito do pensamento ‘avançado’
da época. Direi mesmo que um pouco de Rabelais e muito de Erasmo.”
Seabra Carvalho opta por uma obra que foge aos temas que imortalizaram
Bruegel. Nesta “sofisticada” “Adoração
dos Magos” há “muito do pensamento ‘avançado’
da época”.
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