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"Cidade Misteriosa", de Alex Proyas
Por VASCO T. MENEZES
Um homem (Rufus Sewell) acorda dentro de uma banheira com água fria, num quarto de hotel que nada lhe diz. Além de não fazer ideia de como ali foi parar, nem sequer sabe quem é: olha-se ao espelho e não se reconhece, a roupa, as chaves dentro do casaco e as iniciais - K.H. - inscritas na mala que encontra dentro do armário não lhe despertam quaisquer recordações.
E, pior ainda do que a tomada de consciência da sua amnésia, é a descoberta do cadáver esquartejado de uma mulher, ao lado da cama onde presumivelmente passou a noite. Terá sido ele o autor do crime? Apesar de não se lembrar de nada, a faca ensanguentada em cima da cabeceira não deixa margem para grandes dúvidas. De qualquer forma, a preocupação em salvar um peixinho de morrer asfixiado fora do aquário que acidentalmente partiu não parece muito própria de um suposto assassino...
Confuso e em pânico, recebe um telefonema do bizarro doutor Daniel Schreber (delicioso Kiefer Sutherland, a emprestar a sua voz sibilante ao que parece ser uma paródia/homenagem a Peter Lorre), um psiquiatra neurótico e medroso que lhe promete ajuda, informando-o de que a sua memória foi apagada. Mas o "homem sem nome" prefere fugir e parte à procura de si mesmo. Pelo caminho, chega à conclusão de que se chama John Murdock, reencontra a mulher (Jennifer Connelly, luminosa como sempre), uma cantora de cabaré que entretanto abandonara depois de ela lhe ter sido infiel, e percebe que é procurado pela polícia, o principal suspeito, para o detective Frank Bumstead (William Hurt), do homicídio de seis prostitutas.
Para tornar a situação ainda mais desesperante, no seu encalço estão também os misteriosos "Strangers", criaturas vampíricas vestidas de negro e pálidas como a morte, lideradas por Mr. Hand (Richard O'Brien, o mordomo do clássico "midnight movie" "The Rocky Horror Picture Show"), que parecem adormecer ciclicamente a cidade e os seus habitantes...
Com "Cidade Misteriosa" (1998), chega à série Y a ficção científica, género que ainda não tinha sido apresentado. Algo que acontece agora pela mão de Alex Proyas, conceituado realizador de vídeos musicais e publicidade que, apesar de uma carreira cinematográfica ainda curta, é já visto como um "autor de culto". Nascido no Egipto mas educado na Austrália, tornou-se conhecido por ocasião da estreia em Hollywood, com "O Corvo" (1994), fantasia negra de elaborada sofisticação plástica.
Para o segundo projecto americano, bastante mais ambicioso, o cineasta voltou a mergulhar nas ambiências nocturnas e nos cenários urbanos decadentes e caóticos. Mas em vez do universo do terror gótico que alimentava a adaptação da BD de James O'Barr, em causa está uma fusão tortuosa de "thriller" futurista, expressionismo alemão e "film noir" que explora temas como memória, identidade, percepção da realidade e natureza humana.
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