Parecer das Associações
de Professores
sobre o Programa de Educação do XV Governo Constitucional
O Programa do XV Governo Constitucional, no que se refere à
Educação, não podia deixar de ser importante
para as Associações Profissionais de Professores.
Estando o nosso sistema educativo em pleno processo de alteração,
principalmente a nível de directivas curriculares, é
importante que elas sejam implementadas criticamente, procurando
resolver os problemas e as disfunções que inevitavelmente
surgirão ao longo do seu desenvolvimento. Parece-nos ser
esta a posição adequada, em relação
a um processo que está na fase de implementação
e do qual ainda não podemos tirar ilações
inequívocas. Além disso, este processo foi até
aqui um dos mais participados da nossa história recente,
no que se refere ao sistema educativo, nomeadamente por muitos
professores. A apresentação de medidas parcelares
pode introduzir alterações que, desvirtuando o processo,
impedirão uma correcta avaliação do mesmo.
Sendo o programa em causa um conjunto de intenções
mais ou menos gerais, faltando a especificação e
clarificação em muitas áreas importantes,
não será muito fácil produzir pareceres também
vincados. No entanto, existem algumas opiniões que podem
desde já ser adiantadas e perguntas que parecem pertinentes.
1. Escola pública
"Inverter a situação a que o País foi
conduzido implica, como pressuposto essencial, contrariar o crescente
estatismo a que está sujeita a educação em
Portugal. (...) O quase monopólio da escola pública
que hoje existe, em todos os níveis de ensino, não
é o modelo desejável. Não por ser pública,
mas pelo facto de há muito estar sujeita a limitações
no seu funcionamento e na sua cultura, que contrariam o princípio
constitucional da liberdade de ensinar e aprender, de escolher
e de aceder a um bem que toda a população portuguesa
sustenta.(...) Um maior equilíbrio entre as organizações
pública, social e privada, enquanto destinatários
das políticas educativas e do esforço de financiamento,
é um objectivo que importa alcançar."
(Programa do Governo)
As Associações subscritoras consideram
que o diagnóstico feito não é correcto, se
aceitarmos os dados do próprio Ministério da Educação
(ME), relativos a 2000/2001: aí se indica que o ensino
privado tem, em média, 20% do total dos alunos, assim repartidos:
52% dos alunos que estão na educação pré-escolar,
10% dos alunos do ensino básico; 17% dos alunos do ensino
secundário; 30% dos alunos do ensino superior.
As Associações subscritoras consideram que as medidas
apresentadas não respondem ao diagnóstico apresentado:
as referidas 'limitações no funcionamento' da escola
pública, que existem, não serão colmatadas
por um maior apoio ao ensino privado, pressupondo que a concorrência
aberta irá gerar, por si só, um melhor funcionamento
da escola pública e resolver os referidos problemas de
funcionamento.
Quais são os estudos que dizem que a única maneira
de reformar a escola pública é diminuir mais a percentagem
de alunos na escola pública? Nem os polémicos e
discutíveis "rankings" indiciam qualquer tipo
de superioridade das escolas não públicas e as médias
dos exames nacionais do 12º são há alguns anos
consistentemente semelhantes no ensino público e no ensino
privado.
De facto, é um falso problema colocar as escolas pública
e privada como instituições concorrentes. O verdadeiro
desafio consiste em dotar ambas de condições materiais
e organizacionais que lhes permitam desempenhar o seu papel educativo.
As Associações subscritoras consideram ainda que
o ensino obrigatório deve ir até ao 12º ano
(18 anos) e que o Estado deve assegurar progressivamente que a
escola pública cubra toda a população.
2. Sobre o secundário
"a suspensão do processo de revisão curricular
do ensino secundário de forma a evitar a dispersão
de currículos e conteúdos e o aumento da despesa
pública sem ganhos evidentes de qualidade"
( Programa do Governo)
As Associações subscritoras consideram que as razões
apresentadas pelo ME para a suspensão da revisão
curricular do secundário não são suficientes
para fundamentar essa medida. É o próprio ministro,
na entrevista que deu ao Diário de Notícias, que
defende a suspensão "de forma a fazer pequenas alterações".
As Associações também consideram incompreensível
que se fale em "aumento da despesa pública".
De onde vem este aumento? Não aumentando a carga horária,
pelo contrário diminuindo, e só reformulando um
ou dois programas, a despesa não aumenta. Do equipamento
necessário para alguns cursos tecnológicos? Suspendam-se
só os cursos que impliquem o aumento significativo das
despesas.
3. Divulgação dos resultados dos exames e provas
externas
"a avaliação do desempenho das escolas, com
publicitação dos resultados e criação
de um sistema de distinção do mérito e de
apoio às que demonstrem maiores carências"
(Programa do Governo)
As Associações concordam que se continue a fazer
a recentemente implementada avaliação do desempenho
das escolas, que deve ser objecto de uma reflexão de cada
comunidade educativa relativamente às metas e finalidades
educativas definidas nos seus Projectos Educativos. As Associações
concordam com a avaliação dos professores, dos funcionários,
dos alunos e dos manuais, mas não concordam que se confunda
a avaliação do desempenho das escolas com os resultados
obtidos em provas de avaliação externa, nacionais
ou internacionais. Pensamos que cabe ao ME promover uma avaliação
formativa das escolas onde também se detectem carências
que contribuam para orientar decisões futuras.
As Associações consideram que não vale a
pena fazer provas de aferição para depois o ME se
limitar a entregar os resultados aos professores ou organizar,
com esses resultados, listas de mérito ou de demérito.
4. Exames de acesso no fim do 9º ano
"a adopção de exames nacionais como condição
de acesso ao nível de ensino imediatamente superior (9.º
e 12.º anos) e o desenvolvimento do sistema de avaliação
aferida em cada um dos ciclos do ensino básico visando
a sua integração no sistema de avaliação
regular"
(Programa do Governo)
As Associações consideram um sofisma o raciocínio
que associa exames a qualidade e que atravessa o Programa do Governo.
Também nos parece incompreensível que a avaliação
aferida seja integrada no sistema de avaliação regular.
Esta é mais uma demonstração de que o ME
não sabe o que há-de fazer com estas provas que
têm sido feitas, desnecessariamente e com enormes custos,
a todo o universo dos alunos envolvidos e não apenas a
uma amostra. Não somos contra a aplicação
de uma prova de aferição para avaliação
do sistema, feita apenas a uma amostra, que serviria para orientar
decisões futuras. É evidente que este não
deverá ser o único elemento para aferir o sistema.
Existem outros instrumentos que poderão avaliar componentes
curriculares que não são avaliadas na prova de aferição.
As Associações consideram que é preciso pensar
numa alternativa séria para resolver o problema do insucesso
profundo que existe no 10º ano, mas considera incompreensível
um modelo de um exame de acesso ao 10º ano. O raciocínio
que subjaz a um exame nacional "como condição
de acesso ao nível de ensino imediatamente superior"
pressupõe e confirma categoricamente uma ideologia elitista
- a mesma ideologia que afirma que há um nível imediatamente
superior, que imaginamos que seja o 10º ano de prosseguimento
de estudos.
Que fazer com os alunos que exibam dificuldades ou reprovem? Que
condições criar para a sua recuperação?
5. Avaliação dos manuais escolares
"a estruturação de um sistema que avalie e
incentive a qualidade pedagógica e científica dos
manuais escolares, de modo a reduzir o esforço que, anualmente,
é exigido às famílias na sua aquisição"
(Programa do Governo)
As Associações são contra o manual único
que no passado tão mau serviço prestou ao país.
Defendemos um sistema de avaliação de manuais que
poderia passar, por exemplo, pela classificação
de 'não recomendável', 'recomendável' e 'altamente
recomendável' para todos os livros novos. Essa classificação
seria atribuída por uma comissão, a partir de critérios
já estudados. Ela seria pública e apenas indicativa,
mas obrigaria os professores a justificar a escolha de um manual
classificado como não recomendável.
Quando se fala de materiais não se deveria falar só
de manuais pois isso reforça a sua importância, roubando
espaço aos professores. Afinal existem tecnologias, brochuras
e outros materiais de uso corrente. Também não se
pode esquecer que os manuais são instrumentos para serem
utilizados pelos alunos e que a sua avaliação tem
de levar em conta este facto.
6. Avaliação dos professores
"considera essencial introduzir, a todos os níveis,
uma cultura de avaliação das instituições,
dos docentes, dos funcionários e dos alunos, que tenha
consequências no seu desempenho e no desenvolvimento organizacional,
profissional e humano"
(Programa do Governo)
As Associações não concordam
com a forma como actualmente é feita a avaliação
dos professores, reconhecendo a dificuldade em melhorar o modelo
pelo que é essencial produzir estudos e reflexões
profundas sobre o assunto. Algumas ideias que poderiam ser tidas
em conta: a avaliação deveria incluir a observação
de aulas? Deveria haver sempre um elemento externo à escola,
como actualmente existe para a classificação de
Bom? Devemos ter em conta as turmas e os turnos atribuídos
a cada professor? Devem as acções de formação
ser apenas na área de docência? Deve ser dado mais
peso à efectiva avaliação crítica
do docente, que poderia confrontar a sua análise das necessidades
de formação com a formação efectivamente
obtida? Devem ser reconhecidos os cargos exercidos pelos professores
e a sua participação em projectos de índole
educativa?
A importância dos aspectos referidos é
inegável, porém, não menos relevantes são
alguns aspectos omissos. Por exemplo, a concretização
da avaliação da progressão dos alunos recai
quase exclusivamente na realização de exames, sobrevalorizando
este instrumento e subalternizando outros que são, pelo
menos, tão importantes. Também no caso dos materiais,
a preocupação de qualidade recai apenas nos manuais
escolares, esquecendo-se novamente outros tipos de materiais.
Está também ausente a preocupação
do apetrechamento e dotação das escolas de meios
que lhes permitam o desenvolvimento apoiado nos alunos das competências
consideradas essenciais. Aliás, parece existir alguma contradição
entre o valor que é reconhecido à escola e falta
de intenções claras de investimento nessa mesma
escola, tomada como um todo.
Associação de Professores
de Educação Visual e Tecnológica
Associação de Professores de Geografia
Associação de Professores de Matemática
Associação de Professores de Português
Associação Portuguesa de Professores de Francês
Associação Nacional dos Professores |