Spirou em Portugal
Por Carlos Pessoa

No dia 3 de Janeiro de 1959 a revista Camarada fazia chegar a todas as escolas primárias de Portugal as “aventuras de Clarim e Fantásio”. A banda desenhada O Feiticeiro de Vila Nova de Mil Fungos (título original Il y a un Sorcier à Champignac), assinada por Franquin, foi a primeira história de Spirou traduzida em português, mais de 20 anos depois da criação desta série por Rob-Vel.

A experiência foi certamente positiva, pois a publicação, editada pela organização governamental Mocidade Portuguesa e dirigida por Marcello de Morais, voltaria a incluir nas suas páginas outras aventuras dos dois heróis: A Herança de um Tio Rico (Les Héritiers), Anda uma Cabeça no Ar (La Mauvaise Tête), Rapto no Jardim Zoológico (Les Voleurs du Marsupilami) e O Visitante da Pré-História (Le Voyageur du Mésozoïque).

Aquela primeira aventura seria ainda publicada em álbum na década de 60, com a chancela do Camarada. A capa dessa edição, hoje raríssima, foi feita expressamente por Franquin a partir de um projecto de Carlos Roque, artista português que na altura trabalhava na revista Spirou.

Depois disto, a série esteve presente em outras publicações periódicas: Zorro (1965, com o nome de Serafim e Flausino), Jacaré (1974), Jornal da BD (1984-86) e Selecções BD (1989). Pelo meio ouve duas tentativas falhadas de lançar a versão portuguesa da revista Spirou (1971-72 e 1979). A primeira série, com apenas 26 números, publicou O Prisioneiro de Buda, de Franquin-Jidéhem e Greg. A segunda série teve 32 números e divulgou as histórias Os Chapéus Negros, Como uma Mosca no Tecto, Spirou e os Homens-Rãs e Mistério na Fronteira, todas assinadas pela dupla Jijé-Franquin.

A imprensa generalista portuguesa também acolheu Spirou e Fantásio nas suas páginas. O Público Junior, suplemento juvenil do PÚBLICO divulgou em 1990 Spirou e os Herdeiros, e o BDN, suplemento do Diário de Notícias inseriu histórias no período de 1990-92.

A carreira portuguesa de Spirou e Fantásio em álbum teve início em 1975, ano em que a Editora Arcádia começou a publicar as aventuras da série franco-belga – 14 títulos, todos de Franquin (dois com a colaboração de Jidéhem e Greg), até 1980.

No ano seguinte a Editorial Publica pegou no testemunho, dando à estampa 11 álbuns até 1984 (a maioria assinados por Fournier).

Entre 1998 e 2004 é a Meribérica-Liber quem procede a uma edição mais extensa da série, publicando 25 álbuns – na sua maioria pela dupla Janry-Tome, mas também outros de Franquin já divulgados anteriormente.

A colecção que o PÚBLICO começará a distribuir a partir de 7 de Março, em parceria com as Edições ASA, inclui nove títulos inéditos em Portugal, de Franquin, Fournier, Nic-Cauvin, Munuera-Morvan e Yoann-Vehlman.
 
Spirou
Nasceu como “groom”, quase à imagem e semelhança da experiência de vida do seu criador, o francês Rob-Vel. Este dinâmico e inteligente herói, quase com 70 anos de idade (nascido em 1938), ficará imortalizado como jornalista, primeiro em “Le Moustique” e depois na revista que tem o seu nome. O eterno jovem de cabelo ruivo rebelde, fato vermelho com botões dourados e chapéu redondo, é um dos maiores aventureiros do século XX, enfrentando os maiores perigos em todos os continentes e em todos os tempos, passados, presentes e futuros. Não foi sempre assim, mas haverá alguém que consiga pensar em Spirou sem Fantásio, o seu companheiro e cúmplice?
 
Fantásio
Quando um brilhante actor secundário se transforma num co-protagonista de primeira água está tudo dito. E assim é relativamente a este personagem multifacetado, criado por Jijé em 1944 – antigo detective particular e vendedor de casas pré-fabricadas, encontra o seu lugar natural na série como jornalista do “Le Moustique”. De cabelos rebeldes e um temperamento sulfuroso, Fantásio oscila entre a cólera e a depressão, com alguns sinais de preguiça aqui e ali. Os seus “gags” são geniais e ninguém esquece o seu talento como inventor do fantacóptero e dos óculos com escovas limpa pára-brisas...
 
Spip
Alguns anos antes de “ganhar” Fantásio para as suas aventuras, Spirou encontra e liberta um pequeno esquilo no decorrer de uma das primeiras histórias, em 1939. Spip tornar-se-á depois o mais fiel companheiro do jovem herói, acompanhando-o por todo o lado e apoiando-o em todas as circunstâncias. Temperamental, refilão e cómico, sublinha com os seus comentários silenciosos – mas pertinentes – algumas das mais divertidas (ou dramáticas) sequências. Aliado indispensável dos dois heróis, sobretudo depois de o Marsupilami se retirar de cena, está presente em todas as aventuras da série.
 
Marsupilami
É um animal inclassificável, saído directamente da imaginação transbordante de Franquin, em 1952. Ovíparo, anfíbio e devorador compulsivo de formigas, destaca-se pela cor do seu pelo (amarelo com grandes bolas pretas) e uma enorme cauda de nove metros. Os seus recursos são praticamente inesgotáveis, como Spirou e Fantásio terão oportunidade de constatar desde o momento em que o descobrem e capturam na floresta tropical da Palômbia, algures no continente sul-americano. Desaparece da série quando Franquin deixa de a desenhar em 1968, para encetar uma carreira a solo em banda desenhada própria.
 
Champignac
De seu nome completo Pacôme Hégésippe Adélard Ladislas, o Conde de Champignac é um verdadeiro “cromo”. Mais forte do que Obélix, mais rápido do que Astérix e quase tão idoso como o ancião Decanonix, irrompe nas aventuras de Spirou em 1952, pela mão de Franquin, o seu criador. Especialista em fungos de projecção internacional, revela-se de uma formação enciclopédica que vai da biologia à electrónica. Torna-se com naturalidade um dos grandes amigos dos dois heróis, partilhando aventuras com eles em mais de duas dezenas de álbuns.
 
Seccotine
É a primeira personagem feminina verdadeiramente importante da série, fazendo a sua aparição em 1952, também pela mão de Franquin. Fantásio acha-a detestável e não esconde a sua aversão, acusando-a de ser insuportável e desleal. É verdade que o seu espírito de iniciativa está na origem da divulgação, como jornalista, de algumas histórias em que se antecipa a Fantásio. Actuando no limite do que lhe é permitido pelas normas deontológicas da profissão, Seccotine mostra ser uma mulher ambiciosa, mas também corajosa.
 
Zantáfio
Primo de Fantásio, inventado em 1951 por Franquin. Pouco se sabe do seu passado, mas em contrapartida as suas características são sobejamente reconhecíveis desde as primeiras pranchas: egoísta, presunçoso, malcriado e, sobretudo, com uma ambição desmedida e uma ausência de escrúpulos assustadora. Este personagem de múltiplos nomes e identidades – pelo menos cinco, ao longo das aventuras em que entra – é o principal inimigo de Fantásio, não hesitando em lhe dar cabo da vida sempre que isso serve os seus próprios desígnios.
 
Zorglub
Mais uma soberba criação de Franquin, em 1951, concebida para funcionar como contraponto de Champignac – de quem Zorglub foi, aliás, companheiro de juventude. Tal como Zantáfio, não é um “vilão absoluto”, mas um inimigo dos heróis que evidencia algum potencial de transformação positiva. O seu gigantesco ego faz dele um mitómano, aspirando ao reconhecimento da sua inteligência superior, o que Spirou, Fantásio e o conde nunca levam inteiramente a sério – apenas o suficiente para reconhecer o perigo subjacente aos seus planos de domínio do mundo e frustrá-los em toda a linha.
 
Ao contrário de Tintin, muitos foram os argumentistas e desenhadores que alimentaram as inúmeras aventuras vividas por Spirou ao longo dos anos. Além do criador do herói, Rob-Vel, é de destacar o contributo de artistas de primeira grandeza como Jijé e Franquin – este, em particular, é o grande responsável por uma galeria de personagens fantásticas, como o Marsupilami, o conde de Champignac ou Seccotine, para apenas citar as mais relevantes –, que contribuíram de forma decisiva para fazer de Spirou uma série de referência na BD franco-belga. No duplo papel de desenhador e argumentista, refiram-se Jean-Claude Fournier e Yves Chaland. Há ainda que citar os argumentistas Greg, Cauvin, Tome e, agora, Morvan. Do lado dos desenhadores, a lista inclui Nic, Janry e Munuera, o actual desenhador da série. A dupla Yoann-Vehlman, finalmente, assina uma história paralela no âmbito de uma linha editorial em que autores consagrados são convidados a realizaram uma só aventura de Spirou.