Desde há muito ligado à arte através de diversas iniciativas e publicações, o jornal PÚBLICO orgulha- se de pôr agora à disposição dos seus leitores a monumental Grande História da Arte, 18 volumes com mais de 400 páginas cada e com uma quantidade (mais de 10 mil, no conjunto da obra) e qualidade de imagens e ilustrações raramente vista em obras do género. Desenvolvida em Itália pelo Grupo Scala, esta edição portuguesa, a primeira até à data, é exclusiva para o PÚBLICO e tem revisão técnica e especializada de Paulo Pereira e Manuel Ferreira Chaves.
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A publicação de uma História de Arte Universal em português constitui um acontecimento editorial. Embora abundem hoje títulos relativamente acessíveis que abordam os diversos momentos da produção artística da humanidade, há já muito tempo que não era preparada uma colecção integral que obedecesse a critérios editoriais homogéneos. Esta história de arte cumpre estes objectivos. Apresenta-nos uma visão sistemática de todos os grandes períodos artísticos, começando na Pré-História, e no Próximo Oriente, e terminando por volta de 1940.
A organização interna da colecção, por volumes bem diferenciados em termos de conteúdo, é “clássica”. Quero dizer com isto que a colecção acompanha os momentos que a História de Arte consagrou, em termos estilísticos, como os mais importantes na definição daquilo a que costumo chamar a “visualidade” ocidental, que é o mesmo que dizer, da cultura. Uma atenção especial, de resto, é dedicada a esse segmento de tempo onde parecem nascer todas as modernas convenções de representação das coisas –em boa medida, as que ainda hoje partilhamos: trata-se do período que vai de finais do século XIII até finais do século XVI. É nesta altura que se recorta, contra esse fundo majestoso que é o próprio fio da história –mesmo que seja a história sagrada- o indivíduo. E é nesta altura que o mundo passa a ser entendido segundo os moldes de um determinado tipo de racionalidade, assente, em grande medida, nas descobertas da perspectiva linear. Pôr em perspectiva a humanidade - que é equivalente à inscrição dos homens na história - parece ter sido a preocupação, por exemplo, dos grandes investigadores do Renascimento.
Considero que a arte, que alguns julgam ser algo de supérfluo, é, pelo contrário, algo de constituinte da humanidade. Não há humanidade sem arte. E o que os homens têm feito ao longo da sua história é dar resposta a problemas estéticos, problemas que a própria realidade (o seu quotidiano) lhes coloca. A História da Arte é, precisamente, a disciplina que estuda esses momentos, quase sempre protagonizados por grandes e excepcionais criadores, muitas vezes incompreendidos no seu tempo. Os movimentos de renovação das linguagens artísticas, quer se situem no século VIII, quer aconteçam hoje mesmo no nosso século XXI, são sempre momentos de criação de protótipos. Estes, quando surgem são únicos, eventualmente estranhos, absolutamente novos. Para depois, passados séculos, ou apenas anos, se tornarem em partes integrantes de uma linguagem comum, partilhada por quase todos, universalizando-se e até, banalizando-se.
Não nos devemos admirar com o facto dos três primeiros volumes dedicarem especial atenção à Itália. No jogo de trocas entre as periferias e os centros de criação durante o período que vai do Gótico ao Maneirismo, é a Península Itálica, que na altura –há que lembrar- era um mosaico de soberanias se vão gerar as vanguardas estéticas. Trata-se, nestas colecção, de fazer uma história de arte das vanguardas, dos momentos de ruptura. Mas vamos também surpreender, de quando em vez, referências sérias às resistências à inovação, às rectaguardas. É também desta dialética entre o Velho e o Novo que se faz a História da Arte.
Para concluir, vale a pena referir os aspectos formais: esta colecção possui o mais rico conjunto de imagens e de ilustrações que eu conheço. Mais do que qualquer outra, esta História de Arte deixa o esplendor das imagens falar por si, propondo muitas vezes a sua exploração através de páginas dedicadas ao “aprofundamento” de uma obra de arte considerada exemplar. Por sua vez, os textos são francamente acessíveis, sem cair na divulgação ingénua ou simplificadora. Mais: contam histórias, e acentuam os aspectos humanos dos criadores ou dos encomendadores, sem fazer deles super-heróis.
Colocando-os em contexto, que é como diz, colocando-os em perspectiva. |