Família Fonseca 23.03.2012
A relação de confiança com o “jornalista amigo” só chegou ao fim de quatro meses, depois de a família ter ganho um novo elemento — Luciano, o novo companheiro da jovem mãe solteira. Então, à boleia de conversas soltas, foi-me dada a oportunidade de descer até ao núcleo restrito de uma família que representa o outro Algarve — o Algarve da pobreza que mora ao lado do turista.
Quando pretendia saber como o casal estava a enfrentar as dificuldades, era Luciano quem respondia às chamadas: “É melhor falar com a Xana [Sandra]”, dizia sempre. Ela, uma força da natureza, nunca desistiu de acreditar num futuro melhor ao longo deste ano em que a acompanhámos.
Certo dia, Luciano mostrou-me uma notificação do tribunal por incumprimento do pagamento de uma multa. “Não pago, se quiserem venham-me buscar, não me importo de ir preso”, disparou, indignado não apenas com o sistema judicial. Xana, sentada ao lado, disse-me quase ao ouvido: “Ele tem andado muito nervoso”. Sugeri então que fizesse prova da sua insuficiência económica e ofereci-me para “cozinhar” a redacção da carta a enviar às entidades judiciais. O processo foi arquivado.
“Quando é que traz uma pinga e fazemos um churrasco?”, perguntou-me, como que a dizer: “Já fazes parte da família”. Abriu a porta da barraca onde vive: “Este é o meu palácio”. As febras, com pitada de sal em excesso, puxaram pela bebida fresca, e a seguir as estórias caíram na mesa como cerejas.
Sandra não se cansava de repetir a frase, quase em jeito de apelo à opinião pública: “Eu tenho dois bracinhos para trabalhar”. “Não haverá ninguém que ouça os pedidos de ajuda desta mãe, com dois filhos, no desemprego?”, perguntei a mim próprio várias vezes ao longo deste ano, sem nunca obter resposta.
Durante um ano, Sandra Fonseca remou contra a maré e continua em busca de um porto de abrigo. Um dos raros momentos em que lhe vi brilhar o olhar foi quando me contou que tinha conhecido Luciano. Estávamos em meados de Fevereiro de 2011, havia qualquer coisa no ar a anunciar a antecipação da Primavera.
Ele brincava com André, o segundo filho de Sandra. Os dois pareciam entender-se na perfeição. O miúdo, reguila, apreciava o estilo “cowboy” deste ex-emigrante nos Estados Unidos. “Não saio da cepa torta”, desabafava sempre que lhe perguntava por planos para o futuro, lembrando que sobrevivia com uma pensão de invalidez de 212 euros mensais.
Nas últimas semanas, acalentavam a esperança de poderem ir cuidar de uma quinta no Alentejo. Mais um sonho que saiu frustrado. Nos últimos tempos, o casal não escondia que havia alguma tensão, pois faltava o básico à família. Num sábado de manhã, Sandra telefonou-me: “Desculpe se o acordei, o Luciano pôs-me fora de casa”. Nem sempre as histórias têm um final feliz.