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56 milhões de eleitores escolheram a candidata do PT

Dilma Rousseff apela à união, promete transparência e respeito pelas liberdades

01.11.2010 - 02:29 Por Alexandra Lucas Coelho

Foi já com um discurso de estadista que Dilma Rousseff apareceu ontem ao mundo, depois de ser eleita Presidente do Brasil. Um discurso seguro, completo, e, no fim, emotivo, o seu melhor, para quem a acompanhou ao longo da campanha. Dilma eleita (com 56 por cento, mais 12 que o seu rival José Serra) mostrou-se mais sólida do que Dilma candidata.
Bruno Domingos/REUTERS Dilma Rousseff vai liderar a oitava maior economia do mundo, com ambições de ser a quinta Dilma Rousseff vai liderar a oitava maior economia do mundo, com ambições de ser a quinta

Quase 56 milhões de brasileiros escolheram-na como presidente, mas a partir de agora é que o Brasil, e o mundo, vão saber o que vale esta mineira que nunca disputou antes uma eleição, e era quase uma desconhecida.

Luiz Inácio Lula da Silva, o grande protagonista desta campanha, entrará assim para a história também como o presidente que escolheu sozinho, e fez eleger, a primeira mulher presidente do Brasil. Os votos foram do povo mas o aval que levou esses eleitores a votar foi de Lula.

Não é uma vitória sem sombra.

A taxa de aprovação de Lula é de 83 por cento. Ou seja, há 27 por cento de eleitores que, mesmo aprovando Lula, não se deixaram convencer pela sua candidata. E isso foi evidente na primeira volta, em que Lula não obteve uma esperada vitória da sua escolhida. Muitos dos seus potenciais apoiantes preferiram então Marina Silva, o que levou a uma segunda volta.

Os defensores de Lula tenderão a dizer que, ao fim de três eleições seguidas, a força dele é tão grande que conseguiu eleger uma desconhecida. Os críticos tenderão a dizer que apesar de tanta popularidade ele precisou de duas voltas para que Dilma vencesse.

Certo é que Lula colhe os frutos de uma campanha, crescentemente crispada, em que se empenhou a fundo. E Dilma Rousseff vai liderar a oitava maior economia do mundo, com ambições de ser a quinta.

O facto de ser mulher esteve ausente do debate de campanha. No começo, houve quem apostasse que o Brasil acabaria por não eleger uma mulher. Ontem, o Brasil elegeu-a como se o facto de ser mulher não fizesse diferença. Visão optimista: os brasileiros estão tão à frente que não é preciso discriminação positiva. Visão negativa: isso aconteceu porque Dilma nem é vista como mulher. Não parece ter sido factor para ganhar ou perder.

Mas Dilma começou logo por aí, no seu discurso de vitória.

Avanço democrático

Faltava pouco para 22h em Brasília (meia noite em Lisboa) quando a eleita, vestida de branco, e com ar muito mais repousado que nos últimos dias, apareceu aos militantes e jornalistas.

“Recebi talvez a missão mais importante da minha vida, e esse facto é uma demonstração do avanço democrático do nosso país, porque pela primeira vez uma mulher presidirá ao Brasil”, disse. Primeiro compromisso, então, “honrar as mulheres brasileiras para que este facto se transforme num evento natural” que se possa “ampliar na sociedade”. “Gostaria que pais e mães dissessem: ‘Sim, a mulher pode.’” E pôde, “pelo caminho sagrado do voto”.

Segundo compromisso: “Valorizar a democracia”, começando pela liberdade de expressão. “Vou zelar pela mais ampla e irrestrita liberdade de imprensa. Pela mais ampla liberdade religiosa e de culto, pela observação criteriosa e permanente dos direitos humanos.”

A tensão com a imprensa e a tensão religiosa, por causa do aborto, foram questões na campanha.

Destacando a “incrível capacidade de criar e empreender” do povo brasileiro, Dilma prometeu “a erradicação da miséria e a criação de oportunidades para todos” no Brasil. “Esta meta é um chamado à nação, aos empresários, aos trabalhadores, às igrejas, às universidades, à imprensa, a governadores e prefeitos. Não podemos descansar enquanto houver brasileiros com fome, famílias na rua, crianças abandonadas e reinar o crack.”

O Brasil “é uma terra generosa e sempre devolverá o dobro de cada semente que for plantada”, continuou Dilma. “Minha convicção de erradicar a meta da miséria vem da experiência do nosso governo, do presidente Lula, no qual uma imensa mobilidade social se realizou.” Devido à crise internacional, “será agora “um duro trabalho qualificar” o desenvolvimento, “essa prosperidade criada pela genialidade do nosso presidente”, dos trabalhadores e empreendedores. “No curto prazo não contaremos com a pujança das economias desenvolvidas. Por isso se torna mais importante o nosso mercado, as nossas poupanças.” Não fechando o Brasil ao mundo. Antes, com “ampla abertura das relações comerciais” e com o “fim do proteccionismo dos países ricos, que impedem as economias pobres de se realizarem”.

Dilma comprometeu-se a “cuidar da economia com toda a responsabilidade”. “O povo brasileiro não aceita mais a inflação como solução irresponsável para desequilíbrios. Não aceita que os governos gastem acima do sustentado.” Prometeu “a qualificação dos serviços públicos” e recusou mudanças nos programas de assistência social. Garantiu que haverá “efectividade do controle” e “debate público das grandes questões, sempre com transparência”. Comprometeu-se com “a estabilidade da economia, dos contratos feitos e das conquistas adquiridas”. A propósito do petróleo e outros recursos, disse: “Não alienaremos riquezas para deixar ao povo só as migalhas.”

Quanto ao governo, disse que iria construí-lo com a sua coligação de 10 partidos, “valorizando quadros independentemente de filiação partidária”.

Estender a mão

À oposição, e sectores que não estiveram com ela, declarou: “Estendo minha mão a eles. De minha parte não haverá discriminação, privilégios ou compadrios. A partir da minha posse serei presidente de todos os brasileiros e brasileiras, respeitando as diferenças de orientação, política e religiosa.”

Na administração pública, prometeu, “não haverá compromisso com desvio e mal-feito”. Será “rígida” na gestão, e os órgãos de controle terão o seu “apoio sem jamais perseguir adversários ou perseguir amigos”.

Finalmente, agradeceu ao povo brasileiro, garantindo que “nenhuma região ficará para trás”, e “a todos aqueles que votaram em outro candidato”, porque “também eles fizeram valer a festa da democracia”.

Agradeceu “à imprensa brasileira e estrangeira”, e voltou a insistir: “Algumas das coisas difundidas deixaram-me triste, mas quem lutou pela democracia arriscando a vida, toda a juventude, pelo direito de expressão, é naturalmente amante da liberdade”. “Prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio da ditadura. As críticas do jornalismo livre ajudam ao país e são essenciais à democracia.”

Faltava Lula.

“Agradeço muito especialmente e com emoção ao presidente Lula…” A sala desatou a cantar: “Olé! Olé-Olé-Olá! Lula! Lula!” Dilma repetiu, cada vez mais comovida: “Agradeço muito especialmente e com emoção ao presidente Lula. Ter aprendido com a sua imensa sabedoria, conviver durante todos esses anos com ele me deu a exacta dimensão do governante justo, e do líder apaixonado pelo seu país e por sua gente. A alegria que sinto hoje pela minha vitória se mistura com a emoção da sua despedida. Sei que um líder como Lula nunca estará longe de seu povo e de cada um de nós. Baterei muito à sua porta e tenho a certeza de que a encontrarei sempre aberta. Um homem de tamanha grandeza e generosidade…” A voz treme-lhe. “A tarefa de sucedê-lo é difícil e desafiadora, mas saberei honrar esse legado e consolidar sua obra. Aprendi com ele que quando se governa e se pensa no interesse público uma imensa força brota do poço e nos ajuda a governar, uma força que leva o país para a frente.”

Calcula-se que Dilma comece a anunciar nomes para o governo ainda em Novembro e tenha o executivo pronto em Dezembro. Toma posse a 1 de Janeiro.

Serra deixa porta aberta e Marina dá conselhos

José Serra apareceu depois da presidente eleita discursar, em São Paulo, dizendo esperar que “Dilma sirva bem” o Brasil: “Nós recebemos com humildade o resultado. Disputei com muito orgulho a Presidência da República. Quis o povo que não fosse agora, mas quero dizer que sou muito grato os 44 milhões de brasileiros que votaram em mim.”

Agradecendo aos militantes a energia nas ruas, sublinhou: “Ao lado desses 43,6 milhões de brasileiros que votaram em mim, nós elegemos 10 governadores em todo o Brasil.” Destacou um, Geraldo Alckmin, eleito em São Paulo. “Empenhou-se mais em minha campanha do que na dele.”

Não fez referência ao mineiro Aécio Neves, seu rival dentro do PSDB e provável futuro candidato à presidência.

Fez questão de dizer que ter perdido não foi uma derrota: “Estamos apenas começando uma luta de verdade.” E detalhou: “Vamos dar a nossa contribuição como partidos, como indivíduos, como parlamentares e como governadores.” Pareceu deixar a porta aberta a continuar candidato: “Minha mensagem de despedida nesse momento não é um adeus, mas é um até logo. A luta continua, viva o Brasil.”

Marina Silva, a sensação da primeira volta, com 19 por cento de votos, falou também em São Paulo: “Aquela que foi durante todo este processo eleitoral a candidata de uma parte, a partir deste momento passa a ser a escolhida pela sociedade brasileira para, como Presidente da República, representar a todos nós”, disse.

Desejando boa sorte a Dilma, aconselhou-a a ter “a simplicidade das pombas e a sagacidade das serpentes”. E excluiu a hipótese de entrar no próximo governo. “Já dei a minha contribuição. Acho que a melhor forma de fazê-la, para o Brasil, é voltando para a sociedade, para o trabalho que sempre fiz, que é lutar pela sustentabilidade ambiental do nosso país, [pelo] grande desafio da educação de qualidade no nosso país.”

Não declarou o seu voto, nem adiantou pormenores sobre os planos do Partido Verde (PV), pelo qual foi candidata, e que se fragmentou em apoios diferentes, nesta segunda volta. O capital político de Marina Silva é muito mais amplo que o do PV.

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