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Eleições Presidenciais

A sucessão de Lula de A a Z

31.10.2010 - 08:19 Por Alexandra Lucas Coelho

Hoje, 135 milhões de brasileiros escolhem entre Dilma e Serra. Ela vai mais de 10 pontos à frente e pode ser a primeira mulher Presidente.
Foto: Sérgio Moraes/Reuters Muitos dizem que Lula quer voltar a candidatar-se em 2014 Muitos dizem que Lula quer voltar a candidatar-se em 2014

Aborto

Chegou até ao Papa. Sem mencionar a campanha brasileira, mas a três dias da eleição, Bento XVI veio dizer que a Igreja tem a obrigação de intervir no debate político quando se trata de uma questão como o aborto. A declaração foi interpretada como uma defesa dos bispos brasileiros que apelaram ao voto contra quem defenda a liberalização do aborto.

Desde que começaram a circular boatos de que Dilma Rousseff seria "a favor do aborto", o tema tornou-se a arma de arremesso da segunda volta. José Serra cavalgou a onda, insistindo inúmeras vezes na suposta contradição de Dilma, que se declarara favorável à legalização e agora dizia o contrário. E assistiu-se ao espectáculo insólito de dois candidatos, que na verdade são contra a criminalização das mulheres, passarem a campanha a dizer que são "pela vida".

Há 20 por cento de evangélicos no Brasil e o receio de perder esses votos sobrepôs-se. Enquanto líderes evangélicos anunciavam cruzadas contra Dilma, tanto Serra como Dilma tentavam somar apoios entre os religiosos. Dilma conseguiu o apoio de líderes poderosos, como o da IURD, e de bispos católicos, mas perdeu votos.

Bolinha

Se o aborto foi a arma (psicológica) contra Dilma, a bolinha de papel foi a arma (literal) de arremesso contra Serra. Bem pode a campanha dele detalhar que, em rigor, se tratou de um rolo de autocolantes. E bem pode insistir que, depois de a bolinha ter acertado na cabeça de Serra (durante uma passeata de campanha no Rio de Janeiro), ainda foi lançado um objecto mais pesado (que ninguém conseguiu identificar). Lula chamou bolinha ao objecto "contundente" e toda a gente agora lhe chama bolinha. É já um clássico dos programas de sátira, a bolinha de papel que levou o candidato a fazer um exame tomográfico. A exibição dos vídeos (de telemóvel) consumiu horas de debate em televisão.

Comícios

Uma das marcas da campanha brasileira é a presença de contratados nos comícios, passeatas, carreatas, e acções de rua em geral. Tanto Serra como Dilma contaram com "figurantes" pagos (600 reais por mês - 250 euros - e com horário de trabalho), embora isso fosse bem mais flagrante na campanha de Serra, por o PSDB não ser um partido com grande tradição de militância. Usando também figurantes, Dilma contou sempre com a activa militância do PT, e a enorme popularidade de Lula em momentos de rua apoteóticos.

Do lado do PSDB, o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso não foi visto na primeira volta a fazer campanha, mas na segunda apareceu ao lado de Serra e até perdeu a sola de um sapato numa passeata.

Simbolicamente, o momento mais emotivo e irrepetível de toda a campanha foi o comício-show no Teatro Casa Grande, do Rio de Janeiro, em que Oscar Niemeyer, 102 anos, se juntou a Chico Buarque, ao teólogo Leonardo Boff e muitos artistas e intelectuais para apoiar Dilma.

Dilma Rousseff

Mineira, 62 anos, Dilma é a mulher que diz sempre "nós, no Governo Lula...". Ex-militante da esquerda guerrilheira (sem ter disparado um tiro), foi presa e torturada pela ditadura. Fez a sua carreira política no Rio Grande do Sul, onde Lula a foi buscar. Tornou-se ministra e depois chefe da Casa Civil. Passou por um cancro. Lula escolheu-a sozinho como a mulher a quem ia entregar o Brasil. Esta é a sua primeira campanha para um cargo público. Tique favorito nos debates: dizer que Serra estava a "tergiversar".

Escândalos

No Brasil, a questão nunca é se vai haver escândalos durante a campanha, mas quantos e com que força, tipo sismo. O escândalo desta foi o de Erenice Guerra, a ex-braço-direito de Dilma na Casa Civil, que está a ser investigada por corrupção. Na segunda volta, Dilma pressionou Serra com o caso de Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, acusado de desviar fundos da campanha do PSDB. Mas desde a pré-campanha vários escândalos-em-curso se arrastam.

Feriadão

Sexta foi feriado do funcionário público e terça será de finados. Dá um feriadão de cinco dias, com eleição pelo meio. Os eleitores de Serra temem que favoreça Dilma, porque a classe média alta, mais favorável a Serra, tenderá a sair para gozar o feriado.

Governo

Nos últimos oito anos, o Governo brasileiro foi responsável por um "inchaço" ou "aparelhamento" da máquina do Estado, dizem os críticos de Lula. Os defensores respondem que se tratou de regularizar trabalho informal e precário.

História

Seja o que for que aconteça hoje, parece irreversível a presença do Brasil, ombro a ombro, entre os que estão a escrever a História.

Imprensa

Um poder contrapoder, de onde vem a revelação dos muitos escândalos. A tensão de parte a parte, com Lula a criticar a imprensa e a imprensa a criticar Lula, foi constante.

José Serra

Paulistano, 68 anos, diz sempre "vocês conhecem-me...". Actuou como deputado, prefeito, governador, duas vezes ministro. Tem currículo contra a ditadura, e como ministro da Saúde foi pioneiro nos genéricos e na luta anti-sida. Arrancou aos tucanos do PSDB a nomeação para candidato, vencendo o carismático mineiro Aécio Torres. Se as sondagens se confirmarem e hoje perder, não terá outra oportunidade. Tique favorito nos debates: dizer que Dilma estava a fazer "trólóló".

Lula da Silva

O verdadeiro protagonista desta eleição. Quase tudo se deu por causa dele ou contra ele. Com 83 por cento de popularidade, já sofreu uma semiderrota ao não conseguir eleger a sua candidata à primeira. Hoje está com uma margem muito confortável para o conseguir. Os seus críticos dizem que escolheu Dilma, uma candidata pouco carismática, porque quer voltar em 2014. Muitos dos seus próximos também acham que é isso que vai acontecer. É bastante consensual a crítica de que interferiu na campanha para além dos limites razoáveis.

Mulheres

Onde é que no mundo duas mulheres foram rivais na corrida à presidência, uma delas com sangue negro (Marina Silva)? O Brasil ainda é um país machista, e com problemas raciais. As presenças de Marina e Dilma deveriam ser um sinal de mudança. Mas esses temas ficaram na sombra. Pouco se falou de racismo, e a imagem projectada por Dilma é bastante masculina.

Nordeste

É a região mais pobre, a que mais mudou nestes últimos oito anos, com taxas de crescimento bem acima das nacionais. Simboliza o Brasil em que milhões saíram da miséria.

Óscar

Um júri de especialistas escolheu por unanimidade Lula - O Filho do Brasil, de Fábio Barreto, como candidato ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. O anúncio, feito no começo da campanha, foi recebido por um coro de críticas, segundo as quais o filme é um exemplo de "ruim".

Petróleo

Uma riqueza recente, mas com grandes descobertas. E sexta-feira foi revelada a maior até agora. Nas rochas da baía de Santos, litoral do Rio de Janeiro, estarão cerca de 8000 milhões de barris. No petróleo brasileiro, as boas notícias só se tornam melhores.

Quebrar o plebiscito

Ao conseguir 19 por cento de votos na primeira volta, Marina Silva forçou a eleição a chegar até hoje. O plebiscito à candidata de Lula tranformou-se numa eleição muito disputada.

Redes sociais

Parte do sucesso de Marina, como a própria reconhece, deveu-se às redes sociais e à Internet. Entretanto, na Web, Dilma e Serra são criticados por não acompanharem o boom. O Tribunal Superior Eleitoral atribuir direito de resposta por declarações no Twitter? Aconteceu nesta eleição.

Sondagens

Na primeira volta falharam, não prevendo a dimensão da subida de Marina. Nesta segunda volta, Dilma chegou a ter só seis pontos de vantagem em relação a Serra, mas depois começou a recuperar e nas últimas contagens aparece com 12 pontos de intervalo na sondagem da DataFolha e 14 pontos na do Ibobe. Os indecisos caíram de oito para quatro por cento.

Televisão

Enquanto a Net fervilhava, as televisões acolhiam os debates tradicionais entre os candidatos, com regras e tempos rígidos para réplica e tréplica, uma camisa-de-forças que rapidamente se tornou desinteressante. No último debate, sexta à noite, na Globo, os candidatos responderam a perguntas de cidadãos indecisos.

Urna electrónica

Serão 500 mil a funcionar hoje. É um orgulho do Brasil. O eleitor tecla o número do candidato num microcomputador. Quando aparece a cara e o nome, carrega em Confirma, Corrige ou Branco. Para votar nulo tecla um número que não existe. O sistema já foi adoptado por vários países da América Latina.

Votos nulos

São uma forma tradicional de protesto e nesta eleição extremamente polarizada prevê-se que sejam altos. Figuras como Caetano Veloso (que votou Marina na primeira volta) não duvidaram em dizer que votam nulo.

Xingação

Lula xingou os partidos rivais e vice-versa. Os tucanos xingaram Dilma e vice-versa. Todo o mundo xingou o palhaço Tiririca e mesmo assim ele foi eleito deputado com 1,3 milhões de votos na primeira volta.

Z

A letra que não venceu. Na primeira versão de logótipo para a Copa do Mundo 2014 aparecia Brazil. Os brasileiros protestaram. Ficou o original: Brasil.

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